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A vida só tem sentido quando serve de preparação para vidas melhores.

A moral não é produto do meio social, mas da consciência.

Toda a beleza espiritual do passe espírita provém da fé racional no poder espiritual.

O materialista não é livre, pois está preso à ideia fixa de que tudo é matéria.

A Educação Espírita visa o desenvolvimento pleno do indivíduo, considerando-o um ser imortal e cósmico.

Mediunidade é a faculdade humana, natural, pela qual se estabelecem as relações entre homens e espíritos.

PLOTINO

(Aprox. 205 - 270)

 

Em Plotino, dizia Santo Agostinho, Platão viveu de novo. E isso parece exato, não só no tocante ao pensamento, às tentativas de restabelecimento e ao mesmo tempo de ampliação da doutrina platônica, mas também por um fato curioso. É que Plotino reviveu em Roma, na segunda metade do século terceiro da nossa era, junto ao imperador Galieno, a insistência de Platão na corte Siracusa para uma experiência social de instalação de sua República. A utopia platônica, que não pôde ser experimentada na Sicília, devia então ensaiar-se na Campânia, próximo a Roma. Mais uma vez, porém, o sonho de Platão não pôde realizar-se. Galiano, que era amigo e discípulo de Plotino, a princípio teria concordado com a ideia, mas depois a rejeitou.

Plotino é uma figura misteriosa, e nele se repete o caso de Pitágoras: fé e razão, mística e filosofia misturam-se poderosa e estranhamente na sua alma. Costuma-se dizer que Descartes é um homem de dois mundos, com um pé na Idade Média e outro na Renascença. Pitágoras tem a cabeça mergulhada em duas épocas: a fase órfica e filosófica da Grécia. Plotino, que fica a meio caminho da história, entre um e outro, está na mesma situação. Metade de sua alma pertence ao mundo brilhante da filosofia grega, e a outra metade ao submundo em fermentação das religiões orientais que invadiam Roma, na decadência do Império. Mas assim como Descartes suportou heroicamente a carga de dois mundos e serviu de transição entre eles, Plotino também executou a árdua tarefa que a história lhe jogara aos ombros.

O mistério de Plotino começa com o seu nascimento. Sabe-se apenas que deve ter nascido em Licópolis, no Egito, entre 204 e 205 da nossa era. Durante trinta anos viveu não se sabe como, nem a que se dedicou. Mas depois se encontrou com Amônio Sacas, em Alexandria, e tornou-se aluno deste por um período de nove anos. Amônio é em geral considerado como fundador do Neoplatonismo, que ensinava naquela cidade, onde teve discípulos ilustres. O ensino de Amônio era oral, seguindo a tradição socrática, e diz-se que os seus discípulos eram impedidos de escrevê-lo.

Plotino, ao encontrar-se com o mestre, teria tido uma iluminação súbita, que o despertara para a filosofia. Depois do aprendizado filosófico, resolveu conhecer de perto as religiões orientais, que então estavam na moda. Engajou-se na expedição do imperador Gordiano III contra os persas, mas com a morte deste, na Mesopotâmia, em 244, voltou para o Ocidente e resolveu abrir em Roma uma escola de filosofia. Tornou-se então amigo íntimo do imperador Galieno e da imperatriz.

Foi somente na velhice que Plotino tentou a instalação, como diz Truc, de “uma cidade filosófica”, na Campânia. Galieno era um imperador alegre, dado à oratória, à poesia e à filosofia. Reinou entre 259 e 268, quando foi assassinado. Gostava de conversar com Plotino, além das horas em que o ouvia como mestre. O filósofo pensou que a oportunidade de fazer a experiência da República afinal reapareceria.

Mas os reis, por mais alegres e dados à leveza dos sonhos, possuem um sentido especial para os perigos políticos. E Galieno, embora encantado com o filósofo e com a ideia de construção de uma cidade ideal, acabou percebendo que podiam surgir complicações futuras. Tanto mais que a cidade platônica se ergueria ali mesmo, às portas de Roma.

Somente aos cinquenta anos, ou um pouco antes, Plotino começou a escrever os seus tratados. Mas apesar disso, deixou-nos páginas admiráveis, que revelam um alto espírito, dotado de inegável inspiração poética e de poderosos arroubos místicos. A trindade socrática da filosofia grega encontra nesse egípcio sonhador um digno representante na época romana. Não estávamos mais no esplendor da Grécia. O ciclo espantoso do pensamento grego há muito se encerrara, e em Roma não havia clima para uma floração espiritual tão bela e tão pura. Não obstante, Plotino supera todas as dificuldades e restabelece na Itália a era platônica.

Bréhier adverte que não podemos compreender Plotino se não procurarmos suas raízes em sua própria terra, ou seja, no Egito. Seria inútil tentarmos filiá-lo apenas a Platão, ou mesmo à escola alexandrina de Amônio Sacas. Porque em Plotino temos a mistura da mística com a filosofia de maneira estranha. É o que os egípcios vinham desenvolvendo, desde o primeiro século da nossa era, como o testemunha o episódio dos terapeutas em Fílon na Vida Contemplativa, um movimento contemplativo bastante intenso. Um novo tipo místico dessa espécie surgiu no Egito, diferindo “[…] tanto do filósofo de tradição helênica, quanto do praticante de religiões”, diz Bréhier. Plotino pertencia a esse novo tipo. E foi isso que lhe permitiu sintetizar, tanto na sua pessoa, na sua vida, como na sua obra, a época em que viveu, em seus dois mais acentuados aspectos de vida intelectual e emocional: o filosófico e o religioso.

Plotino realizou, sozinho, o que é simplesmente espantoso: a síntese filosófico-religiosa que o cristianismo levaria ainda dois mil anos para efetivar. E isso ainda é mais espantoso quando sabemos que Plotino viveu exatamente no período em que se verificou a ruína da civilização antiga. Só um tipo especial de filósofo contemplativo, capaz de isolar-se do mundo em ruínas, poderia realizar essa tremenda façanha do pensamento.

O conflito do terceiro século pode ser assim colocado: de um lado, as religiões orientais com sua concepção mítico-histórica do universo, oferecendo aos homens em desespero, diante da falência da ordem social antiga e de suas ingênuas religiões mitológicas, uma possibilidade de salvação metafísica; de outro lado, a filosofia grega com sua concepção racional do universo, concepção anti-histórica, estática, mas perfeita, enquadrando o homem num esquema rígido e brilhante, em que ele devia abdicar de suas esperanças salvacionistas. Plotino resolve esse conflito pela fusão das duas correntes, praticando, embora, como assinala Bréhier, uma violência contra a filosofia grega, “[…] para fazê-la dizer o que ela não estava capacitada a dizer”.

 Na mesma época, outra figura admirável, mais no plano teológico do que no filosófico, tentava a mesma solução em sentido oposto: Orígenes, o doutor da igreja, cujos esforços conciliatórios acabariam em heresia. Discípulo também de Amônio Saca, não obstante a existência de outro discípulo com o mesmo nome, Orígenes tentou a conciliação de Platão com o cristianismo. Toda a Idade Média, porém, ainda teria de correr sobre esse grave problema antes que Orígenes o pudesse resolver. Plotino, que estava do outro lado, escapou à efervescência do movimento teológico e solucionou o seu problema no plano contemplativo.

 

A TRINDADE UNIVERSAL

 

Os escritos de Plotino foram reunidos sob o título geral de Enéades por seu discípulo Porfírio, o mesmo que daria matéria para a querela dos universais na Idade Média. São nada menos de cinquenta e quatro tratados, dispostos por Porfírio de maneira simbólica para exprimir a caminhada de volta da alma, do sensível ao inteligível, ou seja, do homem e do mundo ao uno ou ao bem. Esses tratados apresentam um texto tumultuoso, sem a necessária ordem. Bréhier explica o motivo: são cursos orais, dados em reuniões com adversários gnósticos. Plotino escreve sobre os assuntos que vão surgindo, e sua obra não pode ser ordenada e sistemática.

 Vemos, nas Enéades, que o universo tem uma constituição tríplice fundamental. Existe uma trindade universal, que se constitui dessas três hipóstases: o uno, o intelecto e a alma. A primeira hipóstase é o próprio Deus, o supremo bem, e dele procede a segunda hipóstase, que traduzimos por intelecto, mas que para Plotino é o nous; e deste, afinal, procede a terceira hipóstase, que é a alma. A segunda hipóstase é o mundo inteligível de Platão, aquele em que se encontra a realidade eterna, a ordem perpétua e imutável das coisas e dos seres. Mas, para Plotino, o inteligível é múltiplo na unidade, variável portanto. A imutabilidade está acima, na primeira hipóstase, no um. E abaixo do intelecto, do nous, está a hipóstase da alma, intermediária, dotada de movimento, ativa, projetando o sensível.

Temos assim o sistema do emanatismo plotiniano, segundo o qual uma hipóstase universal emana da outra. Ou o sistema da processão, pelo qual, da alma, que é em suma a alma do mundo, procedem, por degradação na matéria, as almas dos seres corpóreos. Em sentido inverso existe o sistema da conversão, pelo qual a alma individual, imersa na matéria, pode voltar-se para si mesma a fim de se encontrar, e ao mesmo tempo encontrar em si a alma do mundo, que por um ato de adoração se eleva para o nous, que por sua vez volta para o uno. Há portanto dois ciclos: um do perfeito ao imperfeito, pelo qual o uno se fragmenta através das hipóstases inferiores, até as almas individuais; e outro do imperfeito para o perfeito, através do qual as almas individuais se unificam, subindo progressivamente até o uno.

Vemos assim o que podemos chamar a mecânica da contemplação, ou a técnica da salvação pelo processo contemplativo. As almas humanas, pobres almas degradadas, imersas na matéria, estão contaminadas. O que as fez cair não foi o pecado, mas um desejo, que pode ser considerado nobre: o desejo de reproduzir o uno na matéria. Entretanto, a matéria é enganosa, é como um visgo em que pegamos os pássaros desprevenidos, como a teia de aranha em que a mosca se enrola. Não é, porém, uma teia fatal, pois a alma pode libertar-se dela, e na verdade terá de libertar-se. Para isso, basta aplicar a técnica da contemplação: voltar-se para o uno, aspirar o uno, como a matéria aspira à forma na filosofia aristotélica, e destruir assim o desejo e as paixões que a ligam à condição humana.

 A alma é uma espécie de laço entre as hipóstases, e esta sua condição é um dos aspectos mais curiosos da teoria plotiniana. O deão Inge, que escreveu uma vida de Plotino, diz que a alma “[…] é grande viajora do país metafísico”. Ela pode percorrer o universo de um extremo a outro, vir do uno para a matéria e subir desta ao uno. Plotino lhe confere, assim, a invulnerabilidade que Epicuro atribuía ao sábio, mas em muito maior grau. Nada a afeta, pois que ela a tudo pode superar. Colhida hoje na matéria, por força do seu próprio desejo, por seu engano, amanhã se liberta novamente.

 “A Alma — diz Plotino — possui múltiplas potências, em virtude das quais ocupa o começo, o meio e o fim das coisas.” Sempre lhe é permitido subir às hipóstases superiores, desde que se socorra de um ideal, de um demônio, que procurará seguir. Sua explicação desse processo é bastante curiosa:

Se podemos seguir o demônio que está acima de nós, então nos elevamos, para viver a sua vida; esse demônio para o qual tendemos é então a parte melhor de nós mesmos; depois tomamos por guia a outro demônio, e assim sucessivamente, até chegarmos ao mais alto. Porque a Alma é muitas coisas; é todas as coisas, as superiores e as inferiores, e se estende por todo o domínio da vida. Cada um de nós é um mundo inteligível; ligado às coisas inferiores, pelo corpo, tocamos as coisas superiores pela essência inteligível de nosso ser.

Mas o problema da alma em Plotino não se resume no mundo humano ou dos seres animados. Já vimos que a alma é também uma hipóstase, a alma do mundo. Sendo assim, o mundo é um organismo vivo, dotado do poder anímico. A Terra tem a sua alma, que dá às plantas o poder de reprodução e crescimento, e que faz as próprias pedras crescerem. Plotino chega a afirmar que a pedra cresce enquanto está no solo, ligada à terra, e deixa de crescer quando a retiramos dali.

 Não há seres inanimados. Todas as coisas têm alma. E Plotino admitiu também a teoria estóica das razões seminais, partículas vivas que contêm em si todos os caracteres que se desenvolverão nos seres vivos. São como sementes, que contêm em si os vegetais. Mas às vezes, como assinala Bréhier, estas razões seminais, estas sementes de vida orgânica, se confundem com a alma, segundo vemos neste trecho: “As almas, no Universo, não são mais do que fragmentos da razão universal. Todas as razões são Almas”.

A teoria das razões seminais nos lembra as mônadas de Leibniz. São princípios de vida e razão atuantes na matéria. Essa teoria permite a Plotino o pleno desenvolvimento do seu panteísmo fragmentário. O uno está em tudo e por toda parte aspira a voltar ao uno. A potência aristotélica se restabelece através dessas sementes atuantes, que impregnam a matéria de uma vida secreta e de uma razão oculta, que guarda também a reminiscência platônica do mundo das ideias.

 Não é fácil compreender toda essa teoria das almas, principalmente quando nos lembramos de que “a alma está em tudo”. Como pode ser isso? Plotino explica, de maneira ainda mais misteriosa, que a alma, quando mergulha na matéria, nem por isso deixa o inteligível. A parte principal da alma fica na hipóstase de nous, a outra parte é que imerge na hipóstase inferior: “A Alma, ao proceder, deixa sua parte superior no lugar inteligível que sua parte inferior abandona; pois se a processão a fizesse abandonar essa parte superior, ela já não estaria em tudo, mas somente ali onde a processão a levou”.

Desta teoria da semeadura anímica na matéria deduzimos que a influência aristotélica em Plotino pode ser maior do que supomos à primeira vista. Porque resulta desse processo das almas em ascensão, por toda parte, que o movimento do sensível não é determinado por um dinamismo exterior, mas por uma aspiração de ordem contemplativa. No fundo, é o primeiro motor imóvel que continua atraindo o mundo. Platão e Aristóteles se misturam nesse imenso processo. As razões seminais atuam por reminiscência, mas, assim atuando, estão sendo atraídas pelo uno.

Ao chegar a este ponto, poderíamos supor que a matéria é o mal, a negação, o sensível é a região sombria, o triste o fundo da caverna platônica, em que não há mais do que sombras e escravidão. Plotino, entretanto, rejeita essa posição negativa. A matéria é uma produção do uno, e de certa maneira uma queda, uma obscuridade para a alma. Mas por ser uma produção do uno, guarda também alguma coisa da sua natureza, contém em si a alma. E justamente por isso, o mundo sensível também é belo, pois é racional. Não é tão belo quanto o inteligível, mas o é, tanto quanto pode ser nesse plano.

Bréhier acentua que, nesse passo, Plotino faz valer a concepção grega da beleza sensível. “Que geômetra ou aritmético poderia deixar — pergunta Plotino — de sentir prazer nas simetrias, correspondências e princípios da ordem que observamos nas coisas sensíveis?” Realmente, Plotino desenvolve uma teoria estética minuciosa, em que confronta a beleza sensível com a beleza inteligível, beleza natural e artística, integrando o sentimento do belo em sua filosofia. Ainda nisto há por certo a influência platônica, é a idéia do belo difundida no sensível. Mas a concepção de Plotino não é apenas uma cópia, e sim um desenvolvimento inteligente do princípio platônico.

 

O CÍRCULO DA JUSTIÇA

 

Todas as almas se elevam por contemplação? Sabemos que não. O mundo está cheio de criaturas que se perdem na trama da matéria, esquecidas de sua origem divina. Por isso, Plotino queria criar a cidade que, segundo Windelband, se chamaria Platonópolis, na Campânia. Uma cidade destinada ao exercício da contemplação. Talvez nem mesmo fosse a República, como tantos supõem, mas apenas uma espécie de colônia para as almas contemplativas, que não se conformam com a imersão no sensível. Porque a maioria das criaturas se enleiam naquilo que podemos chamar o círculo da justiça, e acabam sofrendo as punições inevitáveis, determinadas não por uma ordem direta e consciente do uno, mas pelas consequências próprias à atividade das almas.

Ao se libertar do sensível pela morte do corpo, a alma devia naturalmente subir às hipóstases superiores. Entretanto, se ela não se lembrou de voltar-se para o nous, se viveu exclusivamente voltada para o mundo sensível, entregue as sensações da matéria, então continuará atraída por esta, e a ela voltará. É nesse ponto que entram na filosofia de Plotino, perfeitamente associadas, as concepções da reencarnação e da metempsicose, derivadas do platonismo e das religiões orientais. A alma pecadora ou criminosa está sujeita ao círculo férreo da justiça. Se matou, voltará para esgotar seu desejo. Sofrerá tantas novas quedas, tantas reencarnações quantas forem determinadas pelos seus próprios impulsos, até que aprenda a modificá-los para escapar ao círculo vicioso.

 A natureza da alma é a imortalidade. Assim, ela está sujeita a todas as penas possíveis, menos à destruição. Sendo uma processão divina, e mantendo no alto a sua “parte melhor”, como já vimos, ela não pode ser destruída. Plotino discorda da ideia aristotélica segundo a qual a alma é a forma do corpo, mas admite e desenvolve a concepção platônica da alma como ideia. Entretanto, para bem defini-la, precisamos compreender a sua qualidade de essência. A alma pode ser explicada, pois, como a substância do ser. Essa substância está obscurecida pelo corpo, mas lá, ou seja, na hipóstase do nous, não há obscurecimento.

Dessa maneira, Plotino correspondia precisamente aos anseios da época. Oferecia aos homens a esperança de uma vida pura e perfeita, fora dos tormentos e das imperfeições do mundo. Abria-lhes uma perspectiva de salvação. E ao mesmo tempo criava uma ética religiosa, que implicaria o esforço constante das criaturas para se libertarem dos seus desejos e apetites, das suas paixões desvairadas. Isso não era fácil, nem certamente muito aceitável, numa época de ambições desenfreadas. Mas se havia de um lado os fortes, os conquistadores, os guerreiros, de outro estava a grande maioria do povo, a massa anônima dos sofredores, que ansiavam por uma doutrina salvadora.

 Se o Plotinismo não se definiu imediatamente por toda parte, conquistando os povos, deve-se isso a sua natureza demasiado intelectual. Faltou-lhe a simplicidade do evangelho cristão, que encontrou profunda repercussão popular. E faltou-lhe, também, o trabalho de catequese do epicurismo, ao qual, por sua vez, faltava a promessa de uma vida futura.

 Na grande batalha da época travada entre as filosofias helenísticas e as religiões orientais, a vitória estava inevitavelmente destinada aos galileus. Nem os gregos, nem os egípcios, nem os romanos poderiam vencer aqueles homens obscuros, destituídos do saber filosófico, que vinham dos confins da Palestina semear os gérmens de uma nova religião no seio do Império em decadência.

 Plotino cumpriu a sua tarefa de maneira gloriosa. Realizou a síntese gigantesca. Mas faltava a sua obra o sopro divino da consolação espiritual, o calor afetivo das palavras do evangelho, que penetraria em todos os corações e mostraria às almas imersas na matéria o caminho do Gólgota, esse estranho caminho que, conduzindo para a cruz, arrastaria entretanto as multidões.

 

A LUTA CONTRA O CRISTIANISMO

 

É com Porfírio, discípulo de Plotino e organizador de suas obras, que vamos ver os momentos decisivos da luta do neoplatonismo com o cristianismo. Porfírio é mais um filólogo do que um filósofo. Não tem a estrutura do mestre, nem o seu alcance. Interessa-se, por isso mesmo, por fixar as linhas da doutrina de Plotino, zelando pelas suas obras e ao mesmo tempo procurando comentá-las. Entretanto, seu trabalho nesse sentido é desviado para as obras de Platão e Aristóteles. Escreve uma história da filosofia, em que destaca a vida de Pitágoras, e entrega-se ao comentário dos grandes mestres do passado.

Com referência a Platão, sua atividade é das mais intensas. Comenta todos os grandes diálogos do filósofo, e depois de vários comentários sobre Aristóteles, volta-se contra o próprio Plotino para defender a lógica aristotélica das críticas deste. Mas Porfírio terá uma grande influência no futuro. Seu famoso tratado das cinco vozes, Introdução às Categorias (Isagoge), vai se transformar numa das maiores fontes de debates no correr da Idade Média.

Porfírio é o responsável, praticamente, pela questão dos universais. Se não lhe coube um papel decisivo na propagação do neoplatonismo, se não lhe foi possível dar sequência ao trabalho gigantesco do mestre na preparação de novos caminhos para a salvação das almas imersas no sensível, coube-lhe pelo menos uma posição de inegável destaque nas turbulências filosóficas medievais, onde os seus textos provocaram lutas intermináveis. Porfírio contribuiu poderosamente para o treinamento da razão no processo do desenvolvimento ocidental que se verificou durante o medievalismo.

Mas não foi apenas nesse terreno que Porfírio exerceu sua influência. Porque sua obra Contra os Cristãos, defendendo a doutrina de Plotino, foi uma ação inegavelmente poderosa do seu espírito na luta do neoplatonismo contra o avanço espantoso do cristianismo. Porfírio combatia a religião nascente acusando-a de bárbara em suas origens, nos seus ritos e no seu culto, e considerando-a verdadeira ameaça à civilização. Esse livro de Porfírio, que se tornou tão famoso, hoje não mais existe. Afirmam alguns que desapareceu, pura e simplesmente. Mas Léon Robin acredita, e ressalta aos olhos que assim deve ter sido, que os cristãos, “[…] após um século e meio de polêmica, deviam enfim conseguir a sua destruição”.

 A Porfírio, entretanto, sucede Jâmblico, seu discípulo e continuador, fundador da chamada Escola Siríaca. Com Jâmblico, os desvios de Porfírio na interpretação do Plotinismo se tornam mais intensos, com derivação cada vez mais acentuada para o Pitagorismo. Essa derivação, aliás, parece ter tido motivo na necessidade de justificar o politeísmo contra o avanço incessante do monoteísmo cristão. Jâmblico conseguiu dar um cunho filosófico à existência dos deuses greco-romanos através de uma mistura de neoplatonismo com pitagorismo. Juliano, o Apóstata, apoiou-se nos trabalhos de Jâmblico e de Salústio, além de outros, para tentar o restabelecimento dos cultos politeístas.

De Salústio, o trabalho mais importante, e que exerceu influência na decisão de Juliano, foi o livro Dos Deuses e do Mundo, exposição dos motivos por que o neoplatonismo podia servir de base filosófica à religião mitológica. A posição de Juliano, nessa luta, é das mais curiosas. Léon Robin se nega a admitir a alcunha de apóstata para o imperador, que reinou apenas dois anos, e afirma tratar-se de figura “[…] de notável inteligência e grande caráter, cuja obra mereceria um estudo atento”.

Curiosa posição, entretanto, a do neoplatonismo nesse agitado período. Amarrado desvantajosamente ao carro do politeísmo vencido, quando poderia manter-se numa posição filosófica independente, era ao mesmo tempo combatido e cortejado pelo cristianismo. A nova religião, na sua sede de crescimento, revelando uma extraordinária capacidade de absorção, não se contentava com as contribuições filosóficas hauridas nos clássicos gregos, e procurava também abeberar-se nos princípios do neoplatonismo para o desenvolvimento da sua teologia.

Os bispos Sinésio e Nemésio, do quarto e do quinto séculos, são citados por Robin como exemplos dessa aproximação dos cristãos com o neoplatonismo. Aliás, o cristianismo nascente, inteiramente desprovido de base filosófica, apoiado apenas na filosofia das máximas evangélicas, lutava desesperadamente para construir o seu arcabouço cultural.

A derrota do politeísmo greco-romano, principalmente depois da tentativa frustrada de Juliano, atingiu em cheio o neoplatonismo. Verificou-se então um fato curioso. Os filósofos, batidos pela religião nascente, refugiaram-se em Atenas. O pensamento platônico voltava ao seu ponto de origem. Ali, onde a Academia ressurgira, vários pensadores continuarão a luta pela manutenção de uma linha filosófica independente. Entre eles, destaca-se Proclo, de Constantinopla, que se revela um pensador de grande envergadura e sucede a Siriano na direção da Academia. Proclo desenvolve grande atividade comentando Platão, os Elementos,de Euclides, a astronomia ptolomaica, e compondo manuais históricos e de física e teologia. O neoplatonismo continuava apegado ás diretrizes religiosas do pensamento platônico, incapaz de se desviar para os caminhos da filosofia, evitando as lutas inúteis. Damáscio, para concluir o entrosamento do neoplatonismo com o politeísmo vencido, publica ainda um livro, Dos Princípios, em que realiza o milagre, segundo Robin, de descobrir na mitologia antiga, tanto na oriental quanto na grega, “[…] com a ajuda de uma exegese dialética, um fundo secreto, que não é outro senão a eterna verdade que o neoplatonismo interpreta.”

Que o pensamento platônico continuou em desenvolvimento na Academia, restabelecida em Atenas, não há dúvida. O trabalho de Damáscio era tão notável quanto a construção da sua dialética justificativa do politeísmo, que acabou servindo para a própria elaboração de certos aspectos da teologia cristã.

“Uma tal metafísica”, diz Robin, “[…] ao mesmo tempo realista e cheia de aspirações confusas, era o de que precisava o cristianismo para enxertar uma filosofia na revelação”. Os trabalhos de Proclo, principalmente sobre a tríade, notável desenvolvimento da teologia de Jâmblico, também assinalaram momentos fecundos do neoplatonismo. Guido de Ruggiero chega a reconhecer que Proclo é um filósofo original, digno de figurar ao lado de Plotino.

Encharcada, porém, de um misticismo anti-racional que a devolvia praticamente às suas origens órfícas, a filosofia da Academia, apesar da fecundidade e do poder intelectual de seus representantes, acabou entrando em agonia. Platão, aliás, estava dividido. Uma parte havia sido absorvida pelo cristianismo, e outra parte lutava contra ele, a favor do politeísmo. Um reino dividido não subsiste, já dissera Jesus.

O edito de Justiniano, em 529, proibindo o ensino de filosofia em Atenas obrigou Damáscio e Simplício, os dois últimos representantes do neoplatonismo, ambos poderosas expressões filosóficas, a abandonar a cidade e refugiar-se na Pérsia. Roma moribunda, por mão de Justiniano, matava o último reduto da filosofia grega, em que bebera melhor leite do que o da loba de Remo e Rômulo.

 

Texto publicado originalmente no livro OS FILÓSOFOS, Ed. Paidéia.


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